A interatividade como possibilidade

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“Até 2030, a maior parte do ensino será personalizada, ou seja, vai acompanhar o ritmo e os interesses de cada aluno. Aulas online serão mais importantes do que as presenciais. Na educação do futuro, as escolas terão formatos híbridos, usando plataformas online e espaços físicos onde ocorram as interações sociais entre estudantes”. É o que concluiu uma pesquisa feita pelo World Innovation Summit for Education (Wise), da Fundação Catar, que ouviu 645 especialistas em educação de diversos países, entre eles o Brasil.

Para alguns, essa afirmação pode assustar tanto, a ponto de parecer que esse futuro é uma realidade distópica ou que, acontecendo, seria o caos. Concordando ou não com essa teoria, a constante especulação em torno da ‘educação do futuro’ e do ‘futuro da educação’ nos faz pensar, por alguns instantes, que as novas tecnologias são uma via de mão única e sem retornos.

Penso que abrir mão das inovações tecnológicas, no cenário atual, não é plausível, até porque se, antes costumávamos dizer “vou entrar na internet,” hoje não saímos dela, a carregamos para todas as partes em nosso bolso. Com o advento da ‘internet das coisas’ (do inglês, Internet of Things é uma revolução tecnológica a fim de conectar dispositivos eletrônicos utilizados no dia a dia, como aparelhos eletrodomésticos, eletroportáteis etc) a conectividade está próxima da onipresença.

“Nada substitui um bom professor”. Esta segunda afirmação foi tema de uma palestra proferida pelo educador português António Nóvoa em um fórum de educação ocorrido recentemente em BH. Para Nóvoa, pensar o futuro é um exercício arriscado e, muitas vezes, fútil. Mas, apesar dos avisos, não resistimos à tentação de imaginar o que nos irá acontecer, procurando, assim, agarrar um destino que tantas vezes nos escapa. Precisamos de vistas largas, de um pensamento que não se feche nem nas fronteiras do imediato, nem na ilusão de um futuro mais-que-perfeito.

A primeira teoria nos assusta, já a segunda nos conforta, pois nesta última fica clara a ideia de que as pessoas não poderão ser substituídas pela ‘senha do wi-fi’. Precisamos de bons pedagogos – do grego paidós, criança, e agogé, condução – para iluminar o caminho da aprendizagem. A educação escolar amplia seu sentido enquanto afeta a vida e lhe traz afeto e significados novos.

No entanto, um ponto em comum chamou-me a atenção, tanto na pesquisa quanto na abordagem do Nóvoa: o futuro da educação passa pela interatividade. Por hora, no futuro que já é agora, não há outro caminho senão o de abrir portas bem largas para a interação. Aqui, a via torna-se de mão dupla e com várias possibilidades de retornos, rotatórias, pontes e viadutos que ligam e interligam os diferentes atores e protagonistas da relação ensino-aprendizagem.

Acabo de assumir (em 2017) a diretoria do Colégio Santo Agostinho BH. Alguns colegas, quando souberam da minha nomeação, me disseram: “nossa... deve ser um desafio bastante complexo.” A que eu sempre respondia: sim, será um grande, porém nobre desafio. No entanto, é bom lembrar que, etimologicamente, a palavra “complexo” vem originariamente de “complexus”, algo como aquilo que é (ou está sendo) tecido junto, entrelaçado. Para Edgar Morin, diante de uma realidade complexa, devemos pensar também de forma complexa. “Não podemos analisar, dialogar e trabalhar com situações tão ricas e tão dinâmicas utilizando um pensamento simplificador que somente consegue pensar o mundo, os seres e as coisas de forma fragmentada e estanque”.

O espaço escolar é belo, desafiador, plural, tecnológico sem renunciar ao humano, e por isso é tecido e construído diuturnamente. Queridos alunos, pais e colaboradores, sejam bem-vindos! Vamos tecer juntos o ano letivo de 2017 que acaba de começar.

Um fraterno e agostiniano abraço,

Clovis Oliveira

Diretor do Colégio Santo Agostinho - Unidade Belo Horizonte