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28 de dezembro de 2020

Vinícius Lanza: garra e determinação em busca da realização dos seus sonhos

“Que orgulho do trabalho realizado em 2020, com o Ensino Médio!  Foi um grande esforço, mas valeu a pena! Tivemos muitos convidados especiais, muita gente bacana, que nos enriqueceu com suas lições de vida, experiências e conteúdos apresentados. Hoje quero agradecer a todos e também aos nossos alunos, pela confiança e pela participação”. Com essas palavras, o professor Cristiano Jardim (Xingu) iniciou a última aula online do ano, ao vivo, organizada por ele e pela professora Renata Ranieri.

Para fechar o ciclo, eles convidaram o nadador Vinícius Lanza, ex-aluno do Colégio Santo Agostinho, que acaba de se formar na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, depois de cinco anos de estudos e treinamentos.

Como tudo começou

Comecei a nadar com apenas três anos. Minha família gosta muito de pescar nas férias, meu pai e meus tios têm a tradição de ir para o Pantanal e morriam de medo de eu sair do barco. Comecei na academia Gota d’Água, no Bairro Santo Antônio. Lá eles sempre focaram muito na parte profissional, incentivando a gente para um dia sonhar em ser atleta profissional. E eu entrei naquela. Assisti às olimpíadas e comecei a sonhar de um dia participar de uma olimpíada. Fui mostrando talento e tomando gosto, que é o mais importante.

Em 2009, com 12 anos, fui para o Minas Tênis Clube, onde estou até hoje, competindo agora profissionalmente. Passei por todas as categorias de base do Clube e, em 2016, mudei para a equipe de ponta e comecei a treinar com outros profissionais.

Atualmente, morro nos Estados Unidos. Acabei de me formar na Universidade de Indiana, depois de cinco anos estudando.

O Colégio em minha vida

O Colégio Santo Agostinho foi tudo pra mim. Meus pais sempre prezaram muito pela educação, até antes do esporte. Lá em casa essa questão foi uma “batalha”, principalmente quando eu fui me voltando muito pro lado do esporte profissional. O Colégio sempre exigiu bastante da gente, desde pequenininho, e meus pais gostavam disso. Eu também sempre gostei e tentei valorizar e aproveitar ao máximo o Colégio. Mesmo porque sabemos que não é barato o investimento que nossos pais fazem na gente em educação. O Santo Agostinho me fez muito bem. Desenvolvi muito como pessoa, como estudante e como atleta. Para mim, a educação e o esporte sempre estiveram lado a lato. Acho que essa foi uma das razões pela qual resolvi ir fazer faculdade nos Estados Unidos, era uma forma de manter o nível alto de educação, junto com o alto nível do esporte. Sem o Colégio, com certeza, eu não teria chegado aonde eu cheguei.

A rotina de treinos

Em uma semana típica normalmente a gente faz 10 treinos na água e três treinos de musculação na academia. Cada treino na água dura em média de duas a duas horas e meia e na academia por volta de uma hora a uma hora e meia. Eu treinava das 5h às 7h30. Ia para a Universidade e depois voltava para outro treino, das 14h30 às 17h.  Tinha também que emendar os horários da academia.

Os treinos são muito puxados. A gente faz até 7 mil metros por Seção. Cada treino tem seu objetivo. Às vezes a gente chega a nadar 70 mil metros por semana. Alguns são mais longos e focam mais a parte aeróbica. Em outros, a gente faz uma metragem menor e aumenta a intensidade, que é mais próximo do ritmo das nossas provas.

Conquistas e planos para o futuro

Na minha prova principal que é 100 metros borboleta e 200 metros medley (os quatro estilos), consegui ficar no ranking mundial, fechando o ano de 2018 em 6º lugar. Também fui semifinalista no ano passado, na Coréia. Agora estou na luta para conseguir minha primeira participação nos jogos olímpicos.

Importante falar também da seletiva para a Olimpíada do Rio, que foi muito importante para mim. Eu fiquei a cinco centésimo da classificação. Naquela época, a Federação Brasileira tinha um esquema diferente que eram duas seletivas olímpicas. Eu ganhei a segunda seletiva (mais próxima dos jogos), mas dois outros atletas tinham ganhado a primeira seletiva que havia acontecido antes, em dezembro. Houve até uma discussão grande na Federação porque, normalmente, os países de fora têm somente uma seletiva, que é a mais próxima dos jogos. Mas, por cinco centésimo, eu acabei ficando de fora. Isso me machucou muito. Depois desse momento acho que agora a seletiva para a olimpíada se tornou uma obsessão para mim. Então, esses últimos quatro anos foram de treinos muito pesados. Me dediquei ao máximo para chegar no momento da seletiva olímpica bem preparado e conquistar essa vaga. 

Alimentação e condicionamento físico

Procuro o que há de melhor para o meu corpo. Minha alimentação hoje em dia é bastante balanceada e saudável, procuro dormir bem, além de contar com a ajuda de fisioterapia e massagens. Cheguei a consumir 7 mil calorias por dia, mas comecei a diminuir porque estou ficando mais velho, tenho 23 anos, meu metabolismo já está dando uma acalmada e eu não preciso comer tanto assim porque senão vou ganhar peso e isso faz bastante diferença.

Quando fui para os Estados Unidos, tinha muita dificuldade de ganhar peso. Era um dos nadadores mais magrelos do mundo. Então o meu foco era para aumentar o meu ganho calórico. Nesses quatro anos consegui ganhar 15 kilos, sendo 13 deles de massa muscular. Então meu corpo mudou muito desde a Olimpíada do Rio, em 2016. Agora me sinto mais forte, mais preparado.

Atleta e estudante nos Estados Unidos

Esta oportunidade que eu tive de ser atleta/estudante foi muito importante para mim. No Minas, cresci me espelhando muito no Nicolas Nilo, um nadador do Clube que foi três vezes nadador olímpico, foi campeão Sul Americano, e que brilhou muito na Faculdade do Arizona, nos Estados Unidos. O time dele foi campeão da NCAA (Liga universitária de natação americana), que é a liga universitária mais forte do mundo. Ele trouxe uma bagagem que eu queria ter para mim.

Nicolas criou uma agência para levar atletas para fora e eu fui um dos primeiros atletas dele. Eu disse a ele que minha família não tinha condições financeiras de arcar com uma faculdade nos Estados Unidos,          que é muito cara.  Ele me falou, então, que eu poderia correr atrás e tentar uma bolsa. Consegui uma bolsa de 100% na faculdade e foi o que abriu as portas para mim. Foi uma experiência que fez toda a diferença em minha vida.

No início não foi fácil. Meus primeiros meses lá foram muito complicados, meu Inglês não era do nível que eu achava que era, tive muita dificuldade na sala de aula, mas agora eu posso ver o tanto que essa experiência me amadureceu como pessoa e como atleta. Viver em outro país, com 18 anos, sozinho, foi uma loucura, mas os perrengues que eu passei contribuíram muito para o meu amadurecimento.

Uma experiência única

Ser um atleta estudante da Faculdade de Indiana representa muito. A comunidade toda é envolvida naquela faculdade, ela é a maior do estado e muitas vezes a gente era reconhecido na rua por pessoas que eram fãs da faculdade. Os jogos de futebol americano, nos estádios da faculdade, reúnem 50 mil pessoas todo final de semana. Existe lá uma paixão que faz parte da cultura, da identidade deles. Então, eu fiquei muito orgulhoso em poder ajudar a minha faculdade a conquistar resultados que a gente não tinha desde os anos 70.

Nós conseguimos terminar no top 3 da NCAA duas vezes e ganhar a nossa conferência, que é uma das mais fortes dos Estados Unidos, não ganhávamos desde o ano 2000 e a gente ganhou nos quatros anos que eu estava lá. Fiquei muito feliz de poder ter esse sentimento de pertencimento a uma comunidade e de ver como eles me abraçaram, até por eu ser internacional. A gente sabe que lá não é moleza. Tem, sim, uma discriminação muito forte, mas eu me senti acolhido, me senti parte da comunidade e foi realmente uma experiência única para mim.

Pressão e nervosismo

O nervosismo sempre existe. Costumo dizer que no dia que eu parar de ficar nervoso eu paro de nadar porque realmente a minha chama terá apagado. Fico nervoso sim, mas eu gosto muito da pressão porque acho que ela tira o melhor da gente. Precisamos aprender a lidar com ela e ver o seu lado positivo. Mas acho que a maior pressão que eu sofro hoje em dia é interna. Eu me cobro muito, sempre fui bastante perfeccionista e às vezes essa pressão passa do limite.  Isso já chegou a me atrapalhar. No último mundial, eu tinha tanta vontade de vencer que acabei mudando minha estratégia de prova. Fiz os primeiros 50 metros mais forte do que deveria, gastei mais energia e senti na volta, isso me custou a final. Até querer demais, dependendo da hora, pode ser algo negativo.

 Tenho uma psicóloga, que me acompanha há mais de dois anos e, uma vez por semana, faz comigo essa preparação. Isso está fazendo muito diferença para mim. Juntos, trabalhamos a motivação no dia a dia e ela me ajuda a lidar com a questão psicológica. Por exemplo, nos Estados Unidos, eu treino ao lado de quatro campeões olímpicos. Para eles, não é anormal ser campeão olímpico, mas muitas vezes a gente enxerga aquilo como algo maior do que realmente é. Acaba endeusando nossos adversários e colocando nossos objetivos como algo inatingível, o que realmente não é. Eles treinam do meu lado, as vezes eu até ganho deles. Mas chega na hora da prova, os caras não pensam duas vezes: vão lá, fazem o que sabem fazer e levam o ouro pra casa.

Apoio da família

Com certeza o apoio da família e dos amigos é muito importante. Para mim, os três primeiros meses nos Estados Unidos foram muito duros. Além da dificuldade com a língua, cheguei lá em janeiro. Saí do Brasil com uma temperatura de quase 30º graus e cheguei lá com uma temperatura negativa de - 20º graus. A gente que é brasileiro sente muita falta do sol. Os americanos também são mais fechados, então eu tinha dificuldade de me interagir com os outros. No primeiro ano a gente mora na universidade. Foram três meses que eu fiquei praticamente sozinho em meu quarto, fazendo tudo sozinho.

Se não fosse o apoio da minha família e os meus amigos do meu lado... sou de uma família de batalhadores. Meu avô era policial militar e conseguiu criar 8 filhos. Minha família é de pessoas humildes, do interior de Minas. Desde o início eu carregava comigo que desistir não era uma opção. Não me imaginava voltando dos Estados Unidos antes da minha formatura. Para mim, isso seria uma afronta a tudo o que minha família representa em minha vida, pelo suporte que eles sempre me dão, independente do meu resultado.

Olimpíada de Tóquio

A gente está se preparando como se a Olimpíada de Tóquio fosse acontecer, mas ainda não temos confirmação se de fato ela vai ser realizada. O adiamento dos jogos, por causa do Coronavírus, foi muito complicado porque estamos nos preparando desde 2016 para esse momento da seletiva e, de repente, acontece algo fora do nosso controle e muda tudo. Acho que todos os atletas que estavam com essa chance sofreram muito.

Foi algo que ninguém estava esperando e que mudou os planos de todos, mas eu gosto de pensar que os planos só postergaram. Meu trabalho, minha vontade, vão continuar os mesmos para a próxima seletiva. Os treinamentos também foram afetados. Durante a pandemia eu fiquei dois meses sem nadar, acho que é foi o maior período que já fiquei fora das piscinas, mas estamos voltando aos poucos, seguindo os protocolos: só podemos ficar dois atletas por raia e cada um fica de um lado da raia. Lá na universidade, eles têm protocolos muito rigorosos para manter a segurança de todos.

Atleta formado no Brasil X atleta formado no exterior

No Brasil, as vezes a gente menospreza a qualidade dos nossos profissionais. Eu realmente acredito que os atletas com os quais eu trabalhei no Brasil são do mesmo nível ou de nível até superior aos dos Estados Unidos. O que muda é a estrutura. Infelizmente, o investimento aqui é muito menor que lá. Nos Estados Unidos, no Estado de Indiana, que é bem pequeno, bem rural, nós temos cinco ou seis piscinas olímpicas de qualidade mundial. Na minha faculdade o investimento é muito grande, ela é uma universidade pública, e todo o dinheiro que eles arrecadam têm de ser distribuído aos alunos, então a estrutura que a gente tem é fora da curva. Penso que a parte da infraestrutura foi a que fez a maior diferença para mim porque, realmente, temos tudo para dar o nosso melhor. O Brasil, infelizmente, está um pouco atrás disso, apesar da qualidade dos nossos atletas.

 

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