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21 de julho de 2020

Os reis do futebol ontem e hoje: entre feudos e capitanias

Você já pensou que o futebol, que leva milhares de pessoas aos estádios e é considerado uma grande paixão dos brasileiros, pode não ser tão democrático quanto parece? Foi esta a reflexão apresentada aos alunos da 1ª série do Ensino Médio, em mais uma aula ao vivo on-line de História, com a professora Renata Andrade.

Para falar sobre o assunto, ela convidou o professor Thiago Costa, pesquisador, doutorando em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais, curador e coordenador do Museu Brasileiro do Futebol, no Estádio do Mineirão, no período de 2013 a 2019, que relacionou o futebol às capitanias hereditárias e ao feudalismo.

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 Para contextualizar, ele lembrou que nas Capitanias Hereditárias as terras eram doadas aos nobres para colonização. Não podiam ser vendidas e eram transmissíveis apenas por herança. Já o Feudalismo baseava-se no regime de servidão. O trabalhador rural era o servo do grande proprietário de terras, o senhor feudal.

As origens do futebol

Segundo o professor, o futebol surgiu na Inglaterra, em meados do século XIX, com a Revolução Industrial. Para sobreviver na competitiva sociedade capitalista que se formava, corpos e mentes necessitavam de regras e disciplina e, neste contexto, o esporte ganhou papel de destaque.

Foi implantado como disciplina nas escolas de elite, com o objetivo de formar líderes para o então Império Britânico.

No entanto, na década de 1880, o esporte já era praticado também nas escolas públicas, atraindo os membros das camadas mais pobres. Pouco tempo depois, em 1885, se profissionalizou no país, incentivando a entrada de empresas na fundação e/ou na manutenção dos times. O mesmo aconteceu posteriormente em outros países, como Itália, Holanda e França.

Das elites para as massas

No trecho da aula, abaixo, o professor conta como o futebol chegou ao Brasil. Confira:

 O futebol a serviço dos interesses políticos

“A República representava os interesses da elite que a sustentava, e no futebol isso não seria diferente. Os primeiros clubes de futebol fundados nos centros urbanos eram exclusividade dessa elite, que instituía altos valores para as cotas e restrição para negros, com o objetivo de evitar ao máximo a participação popular no esporte. As ligas e federações filiavam nesses times somente membros das elites”, explicou Thiago Costa.

Mas, segundo o professor, com a popularização dos jogadores e dos clubes de futebol, a política passou a se interessar e muito pelo futebol. “O discurso de unidade nacional brasileira já começava a ser difundido na Copa de 1938, disputada na França, e se consolidou de vez na trágica Copa de 1950, no Brasil, que, mesmo com a derrota do time brasileiro, serviu de combustível para o jogo político. Discursos e comemorações em estádios de futebol eram comuns nessas décadas, e políticos populistas viram no futebol um importante aliado”, lembrou o professor.  

Exemplo disso  foi o que ocorreu durante o regime militar, com a construção  de diversos estádios em todo o Brasil. E, na Copa de 1970, a música “Pra Frente Brasil”, ecoou em todo o país enaltecendo a seleção: “noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Do meu coração... Todos juntos vamos, Pra frente Brasil, Salve a Seleção!” ecoou em todo o país.

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E o feudalismo continua....

O professor Thiago Costa concluiu sua reflexão com estudos de casos, mostrando que, ainda hoje, o futebol vem sendo utilizado para atender os interesses de alguns poucos e privilegiados.

É o caso, por exemplo, da FIFA – Federação Internacional de Futebol e da CBF – Confederação Brasileira de Futebol, que foram presididas pelas mesmas pessoas por mais de 20 anos (Feudo), sendo que o vice-presidente da CBF, José Maria Marin, está, atualmente, preso acusado de corrupção.

Enquanto isso, os torcedores (servos) que, de fato, fazem os times funcionar têm acesso cada vez mais restrito às partidas, devido ao alto preço dos ingressos para os estádios.

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