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30 de setembro de 2020

Fascismos e neonazismos: permanências e mudanças na história

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Como atividade complementar de História da 1ª e da 3ª série do Ensino Médio, a professora Renata Andrade convidou a historiadora Anna Viana para falar aos alunos em uma aula online, ao vivo, sobre fascismos e neonazismos.

Anna Viana, ex-aluna do Colégio (formada em 2015), é graduada em História e mestranda em História e Políticas Públicas na UFMG e estuda o fascismo e o nazismo, temáticas polêmicas e relevantes para a atualidade, quando partidos e movimentos com características do fascismo e do neonazismo têm despertado medo e insegurança aos que defendem a democracia no Brasil e no mundo.

A especialista começou sua aula lembrando o conceito de fascismo: “A palavra se origina do termo fascio, do latim facis, e se refere ao símbolo da autoridade dos antigos magistrados romanos, que usavam feixes de varas com o objetivo de abrir espaços para que passassem. Elas simbolizavam o poder do Estado e, não é por acaso, o termo foi mobilizado por Mussolini durante o regime fascista italiano, também chamado de fascismo clássico”.

Anna Viana observa, no entanto, a existência de três fascismos principais: o fascismo italiano, o fascismo alemão (também chamado de nazismo) e o fascismo histórico, que é o conceito que permite a gente falar de fascismo nos dias atuais. Portanto, não existe um conceito fechado de fascismo. Segundo a especialista, eles são movimentos que têm ideias semelhantes, mas admitem possibilidades um pouco diferentes entre si. Diferente do neonazismo, que se refere à recuperação de um conjunto de ideias específicas, que aconteceu na Alemanha pré e durante a Segunda Guerra”, afirma.

Como identificar o fascismo?

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Diante da constatação de que não existe um conceito fechado de fascismo, como identificar movimentos e partidos como fascistas ou não? Anna Viana indica algumas características que, de maneira geral, estão presentes no fascismo:

● Culto à tradição (recuperação de um passado histórico, considerado como uma verdade inquestionável. O nazismo, por exemplo, parte do pressuposto de que os germânicos são uma raça superior)

● Ausência de críticas (não aceitam pensamentos diferentes e nem aceitam ser questionados)

● Racismo (pode vir em vários formatos. Pode ser contra populações negras, asiáticas, árabes, mulçumanas etc).

● Nacionalismo (remete à ideia da superioridade de um povo)

● Construção de um inimigo (muitas vezes, os movimentos fascistas se sentem ameaçados pelos povos que consideram inferiores).

O processo de desnazificação

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Depois de explicar sobre o conceito e as características do fascismo e do nazismo, Anna Viana falou aos alunos sobre o processo de desnazificação do que sobrou após a Segunda Guerra. Segundo ela, esse processo ocorreu mediante três medidas importantes: os julgamentos dos nazistas, a destruição de símbolos e a restituição da democracia tanto na Alemanha, quanto nos países ocupados.

Os julgamentos

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Lembrando que a grande maioria dos nazistas não foi a julgamento e continuou vivendo a vida normalmente, Anna Viana apresentou alguns dados sobre esse processo. Segundo ela, um dos maiores julgamentos de nazistas foi o de Nuremberg (foto)  em que foram julgados efetivamente 21 homens dos quais: 11 foram condenados à morte por enforcamento, 3 foram condenados à prisão perpétua, 2 a 20 anos de prisão, 1 a 15 anos de prisão, 1 a 10 anos de prisão e 3 foram considerados inocentes. Dos condenados à prisão, foram poucos que cumpriram toda a pena

O Contador de Auschwitz -Em 1945, havia cerca de 800 mil membros da SS. Os alemães, de 1947 até agora, investigaram mais de 100 mil dessas pessoas. Entre elas, seis mil e 200 foram julgadas. Dessas, 124 foram condenadas por assassinatos. São 124 prisões perpétuas dentre mais de seis mil pessoas julgadas.

Fascismo e neonazismo: ressurgimento?

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Nos dias de hoje, em vários país do mundo, existem partidos e movimentos, cujas características se identificam com o fascismo e com o nazismo.  Mas, segundo Anna Viana, “não se trata de um ressurgimento porque, na realidade essas ideias nunca sumiram completamente. Elas continuam vivas, ainda que com algumas mudanças, com outros elementos, que caracterizam os movimentos fascista e nazista na atualidade”.

Para exemplificar, Anna Viana cita o que aconteceu na Alemanha nos últimos dois anos: “O número de extremistas de direita ativos na Alemanha aumentou significativamente em 2019, aponta um levantamento divulgado pelo jornal Tagesspiegel, nesta segunda-feira (16/12). O Departamento de Proteção à Constituição da Alemanha (BfV), agência de inteligência doméstica do país, e os serviços estaduais identificaram um total de, no mínimo, 32.200 extremistas de direita. O número cresceu um terço, em comparação com o levantamento de 2018, quando as autoridades contabilizaram 24.100 envolvidos em redes extremistas de direita”. Dados divulgados no portal brasileiro da Deutsch Welle (16/12/2019).

A especialista apresentou aos alunos, ainda, um panorama dos partidos políticos e dos movimentos sociais de extrema direita presentes hoje em vários países do mundo.

“Quem semeia vento, colhe tempestade”

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Segundo Anna Viana, ideais nazistas como o antissemitismo, o racismo, a xenofobia e a supremacia branca continuam sendo defendidos em toda a Europa, principalmente, no Reino Unido, na França, na Suécia, na Alemanha e na Itália.

E, ao finalizar a aula, a historiadora exibiu a imagem de um grupo neonazista, com uma faixa escrito: quem semeia vento colhe tempestade.

De acordo com ela, a frase tem sentido de ameaça, como se o grupo estivesse apenas reagindo aos ventos que percebe e, frente a eles, se posiciona como tempestade.

Diante disso, Anna Viana convidou os alunos a refletirem sobre como nós podemos inverter essa lógica: pensar que esses ventos do fascismo e do neonazismo estão presentes e são fortes e, a partir daí, o que nós podemos fazer, como tempestade, como pessoas que desejam a democracia, frente a esses ventos?

 

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